Covid-19 e o papel

Covid-19 e o papel

COVID-19 e as diferentes superfícies

Qual o suporte onde permanece menos tempo?

Muito se tem escrito e falado sobre a contaminação pela nova doença Covid-19 através do contacto com superfícies físicas. Afinal, é possível contrair a Covid-19 por contacto com suportes físicos? Se sim, quais os mais fiáveis? E o papel? Como se comporta?

A Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus SARS-COV-2 é ainda relativamente recente, sendo que, por exemplo, os 2 primeiros casos só foram detetados em Portugal a 2 de março.

Este novo vírus (e doença) era desconhecido antes do início do surto em Wuhan, na China, em dezembro de 2019. A COVID-19 é agora uma pandemia que afeta muitos países do mundo e também, só agora, passados 6 meses começam a surgir os primeiros estudos sobre os efeitos nos pacientes afetados e nas formas de propagação.

De acordo com a OMS – Organização Mundial de Saúde – a doença espalha-se principalmente de pessoa para pessoa através de pequenas gotas do nariz ou da boca, que são expelidas quando uma pessoa com COVID-19 tosse, espirra ou fala. De acordo com a informação do website da organização “essas gotículas são relativamente pesadas, não viajam longe e afundam rapidamente no chão. As pessoas podem apanhar a COVID-19 se respirarem essas gotículas de uma pessoa infetada pelo vírus”, acrescentando: “É por isso que é importante ficar pelo menos 1 metro longe dos outros. Essas gotículas podem pousar em objetos e superfícies ao redor da pessoa, como mesas, maçanetas e corrimãos. As pessoas podem ser infetadas ao tocar nesses objetos ou superfícies e depois tocar nos olhos, nariz ou boca. É por isso que é importante lavar as mãos regularmente com água e sabão ou limpar com álcool”.

A questão do contacto com superfícies contaminadas surgiu desde o início e, por isso, era importante determinar quais os suportes físicos que têm maior ou menor probabilidade de serem contaminados e durante quanto tempo.

Segundo a declaração da Organização Mundial de Saúde: “o risco de apanhar o vírus (SARS-COV-2) que causa o COVID-19 numa embalagem que foi manipulada, transportada e exposta a diferentes condições e temperaturas é baixo ”.

A prestigiada revista científica Lancet Microbe também publicou em maio um artigo sobre a estabilidade do SARS-CoV-2 em diferentes condições ambientais e também estudando diferentes superfícies. A conclusão é evidente: nenhum vírus infeccioso foi detetado nos papéis de impressão após uma incubação de 3 horas. Dito de outra maneira, em papel impresso qualquer vestígio do novo coronavírus desapareceu ao fim de três horas. Porque é este dado relevante? Porque o mesmo estudo concluiu que o coronavírus só desaparece de superfícies lisas como o vidro ao fim de 4 dias e, tratando-se de aço inoxidável e plástico, ao fim de 7 dias…

Em abril foi igualmente publicado no jornal de medicina The New England um estudo que avaliou a estabilidade do SARSCoV-2 em superfícies como plástico, aço inoxidável, cobre, cartão, comparado com o vírus SARS-CoV1, o vírus humano mais próximo do novo coronavírus.

A conclusão foi a de que o vírus pode ser detetado em aerossóis até três horas após a aerossolização, até quatro horas em cobre, e até três dias em plástico e aço inoxidável. Ambos os vírus mostram viabilidade relativamente longa em aço inoxidável e polipropileno (plástico) em comparação com cobre ou cartão. No cartão, nenhum SARSCoV-2 viável foi detetado após 24 horas, conclui este estudo.

Por seu turno, o Estudo publicado na The Lancet Microbe intitulado “Estabilidade do SARS-CoV-2 em diferentes ambientes e condições” é bastante conclusivo:

“Nenhum vírus infeccioso foi recuperado de papel impresso e dos lenços de papel após uma incubação de 3 horas, enquanto nenhum vírus infeccioso pôde ser detetado na madeira e tecido tratados no dia 2. Por outro lado, o SARS-CoV-2 foi mais estável em superfícies lisas. Nenhum vírus infeccioso foi detetado nas superfícies lisas tratadas no dia 4 (vidro e notas) ou no dia 7 (aço inoxidável e plástico). Surpreendentemente, um nível detetável de vírus infeccioso ainda poderia estar presente na camada externa de uma máscara cirúrgica no dia 7 (± 0,1% do inóculo original)”. Ou seja, mais uma vez as superfícies onde o novo vírus “morre” mais rapidamente são o papel e seus derivados. Porquê?

O Dr. Lloyd-Smith, autor do estudo “Aerossol e Estabilidade da Superfície da SARS-CoV-2 em comparação com SARSCoV-1”, abordando as preocupações da Public Health England (a congénere inglesa da Direção Geral de Saúde) afirma que “o vírus não sobrevive bem por longos períodos fora do corpo e, portanto, é altamente improvável que o COVID-19 possa ser espalhado por meio de correio ou pacotes.”

Além disso, as condições de fabricação de papel, somadas aos processos de impressão e distribuição diminuem significativamente a quantidade de partículas necessárias para infetar alguém. O material em si não é um bom local para a existência do vírus, refere também a TwoSides.

As pesquisas até agora efetuadas sugerem que o vírus tem sobrevivência mais longa em superfícies lisas e não porosas, como plástico e aço inoxidável. Uma vez que papel e cartão são porosos, têm menor potencial pelo menor período.

Os autores destes estudos científicos também observam que foram necessárias técnicas especiais para recuperar o vírus de objetos e, portanto, essa recuperação do vírus não reflete, necessariamente, o potencial de captação do vírus num contacto casual.

“Numa experiência de laboratório, as condições são controladas muito cuidadosamente e mantidas constantes. Em comparação, no mundo real condições como temperatura, humidade e luz variam. Então, a capacidade de sobrevivência do vírus também pode variar. Por exemplo, se o vírus contamina uma superfície ensolarada – como o peitoril de uma janela, pode não durar tanto tempo”.

Sem dúvida, haverá mais pesquisas sobre a relação entre COVID-19 e superfícies nos próximos meses e anos. Mas é importante seguir as diretrizes dos especialistas para garantir a redução da transmissão de pessoa para pessoa.

Em Portugal, e a este propósito, a Diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, numa conferência de imprensa disse: “Manusear papel – sejam jornais, sejam revistas ou folhas e cadernos – não implica um risco acrescido, muito grande”.

A Direção-Geral da Saúde explicou na ocasião que manusear papel “não implica um risco muito grande” de contágio pelo novo coronavírus, mas disse não recomendar que serviços públicos disponibilizem revistas ou jornais para ser mais fácil limpar as superfícies.

De acordo com a responsável, há, porém, “aqui uma nuance”, visto que “é muito mais fácil higienizar num cabeleireiro, entre cada cliente, um espaço onde não está nada – que é pulverizar, passar um pano e fica limpo – do que num espaço onde estejam muito objetos”.

Nos cabeleireiros, nos barbeiros, nos consultórios, estamos sempre a recomendar a higienização das superfícies […] e por isso é que nos habituamos agora a ver essas superfícies muito libertas de objetos – de revistas, de jarras, de tudo o que é supérfluo”, acrescentou.

Ainda assim, isto não está relacionado com os materiais em si, neste caso o papel, segundo Graça Freitas. Temos de, por um lado, dizer que o risco de manusear papel não é muito grande, mas continuamos a achar que em zonas comerciais esse papel não deve estar presente apenas porque melhora muito a capacidade de limpeza e de higiene de superfícies”, justificou, quando questionada sobre quais as recomendações da DGS para este tipo de elementos.

O caminho ainda é longo e só agora se começa a perceber as verdadeiras implicações da Covid-19 na saúde das populações, as diferentes formas de transmissão e as medidas de proteção que devem ser tomadas. No entanto, e de uma forma cientificamente comprovada, de entre todas as superfícies testadas, o papel e o cartão são, pelas suas características intrínsecas, aquelas onde o coronavírus permanece menos tempo.

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