APIGRAF Indústria gráfica: impressões que permanecem
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Memória

Entre letras e tipos

Memória é o ponto de partida: o lugar onde podemos reconhecer as técnicas e os saberes que estão na origem dos múltiplos sítios que a palavra ocupa hoje.

1 – Cavalete tipográfico

Com topo inclinado para facilitar a composição e gavetas para armazenamento de famílias de tipos (espólio da Universidade Politécnica de Tomar).

2 – Composição tipográfica

Com diferentes tipos lineares, original da Imprensa Nacional da Casa da Moeda (espólio da Universidade Politécnica de Tomar).

3 – Prelo

Equipamento para execução de provas tipográficas, proveniente da Imprensa Nacional da Casa da Moeda (espólio da Universidade Politécnica de Tomar).

4 – Desperdício de chumbo

Proveniente da secção de fundição de um equipamento de composição mecânica Linotype (espólio da Universidade Politécnica de Tomar).

5 – Forma de produção de papel

Teia "Almasso" proveniente da fábrica de papel da Marianaia (espólio da Casa Memória da Fábrica de Papel do Prado).

6 – Forma de produção de papel

Teia com marca d'água "PRADO" (espólio da Casa Memória da Fábrica de Papel do Prado).

7 – Cartaz de tourada

Reprodução de cartaz de corrida de touros de 11 de junho de 1961 (espólio da Tipografia A Persistente).

Entre letras e tipos – alguns escritores-tipógrafos

1 – Canções de Inocência e de Experiência [1789], William Blake, 2.ª ed. reimpressão, trad. de Jorge Vaz de Carvalho, Porto, Assírio & Alvim, 2024.

William Blake (1757-1827), poeta e pintor inglês que imprimia, ilustrava e comercializava os seus próprios livros, realizando uma espécie de modelo individual do que hoje se chama “impressão a pedido” (print on demand).

Para este efeito, William Blake inventou uma técnica de impressão conhecida por Illuminated printing (Impressão iluminada) onde combinava técnicas de gravura com a impressão de texto e imagem numa placa de cobre.

2 – Esplendores e Misérias das Cortesãs [1838-1847], Honoré de Balzac, trad. de Beldemónio (Eduardo de Barros Lobo), 2.ª ed., Lisboa, Guimarães & C.ª., Editores, s.d.

Honoré de Balzac foi empresário gráfico entre 1826 e 1828. Tal como Fernando Pessoa, esta foi uma experiência que cedo se revelou desastrosa para o autor de A Comédia Humana.

A sua experiência como empresário gráfico inspirou algumas das páginas do seu romance Ilusões Perdidas, cuja continuação se encontra neste volume, pois o protagonista é o mesmo Lucien de Rubempré.

Este romance, tal como Ilusões Perdidas, foi originalmente traduzido por Eduardo de Barros Lobo, cronista, contista e também impressor (Ver nota abaixo).

(mais informações: https://historyofinformation.com/detail.php?id=4700)

3 – Revista O Arauto, Lisboa, n.ºs 1 a 25, de 7 de janeiro a 24 de junho de 1886

Redator: Beldemónio (pseudónimo de Eduardo de Barros Lobo)

Nota: Eduardo de Barros Lobo (1857-1893), foi um jornalista, cronista, contista e tradutor que, a partir de determinada altura, passou a usar o pseudónimo pelo qual ficou conhecido: Beldemónio.

Todos os números desta revista foram escritos por Eduardo de Barros Lobo, sendo que os três primeiros números foram escritos, compostos e impressos na sua tipografia, à Travessa do Jordão, n.º 80. O mesmo sucedeu, aliás, com os dois livrinhos de contos que publicou, A Musa Loira e Contos Imorais, ambos editados em 1890.

Beldemónio foi ainda dos primeiros tradutores de um outro autor-impressor, Honoré de Balzac, tendo igualmente sido dos primeiros a traduzir os romances de Émile Zola.

(mais informações em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Beldem%C3%B3nio).

4 – Antero de Quental – tipógrafo-amador ou um Profissional Assalariado?, Casimiro Augusto Morais, Lisboa, Editorial Império, Lda., 1943

Livro impresso por ocasião do 1.º Aniversário de O Gráfico (1-V-1943) – em brevíssimas palavras, o autor refere a passagem de Antero de Quental pela Imprensa Nacional e traça a biografia daquele que foi o seu mestre, Francisco Guilherme Tito da Silva.

Casimiro Morais conclui o seu opúsculo com estas palavras de manifesto orgulho por as artes gráficas terem nas suas fileiras um nome como o do poeta das Odes Modernas:

“Antero de Quental pode ser considerado, em determinada época da sua vida, como nosso antepassado na profissão, na rigorosa acepção da palavra.

O tempo que empregou na aprendizagem, aliado à sua cultura, fizeram dêle um tipógrafo de grande classe, como demonstrou exercendo a profissão no exigente meio parisiense.” (p. 14)

5 – Tipógrafos Ilustres, Manuel Pedro, Porto, Imprensa Moderna, 1944

Neste livro, Manuel Pedro (1889-1956) resume o percurso biográfico de algumas das personalidades, mais ou menos famosas, que estiveram ligadas, por breves instantes ou por uma vida inteira, às artes gráficas. Releva, entre outros, Antero de Quental, Teófilo Braga, Brito Aranha e João Cardoso Denis (cujo livro, Aquarelas, foi prefaciado por Eça de Queirós). Também os mundialmente célebres Benjamin Franklin, Thomas Edison e Carlos Gardel merecem destaque neste livro.

6 – O Escritor, o tipógrafo e o livro, Manuel Pedro, Porto, Imprensa Moderna, 1951.

Para Manuel Pedro havia uma estreita ligação entre o escritor e o tipógrafo, pois ambos estavam na génese deste objeto único que é o livro, o primeiro artista intelectual e da criação literária, o segundo artista do braço, sob o signo da então chamada divina arte negra:

“O livro, que nós vemos nos escaparates das livrarias, nas estantes das bibliotecas, nas mãos dos transeuntes, é feito pelo artista intelectual e pelo artista do braço. Pelo artista intelectual, porque o idealiza e escreve; pelo artista do braço, porque o executa e lhe dá forma e beleza artística. Estes benfeitores da humanidade, estes maravilhosos artistas completam-se; e assim, a inteligência e o braço, unidos, muito concorrem para o despertar da inteligência dos povos e para o progresso das ciências e das artes.” (p. 17)

7 – “Fernando Pessoa – Empresário Gráfico”, Jorge Lopes, Revista T&G n.º 120, junho de 2002, pp. 25-28

Num dos parágrafos deste artigo, lemos o seguinte:

“O nome da Tipografia entrou, também ele, para a iconografia mítica do poeta da Ode Marítima, EMPRESA Íbis – Typographia e Editora Officinas a Vapor, como podemos observar no logótipo (…) do papel timbrado.” (p. 26)

Foi em 1909, que Fernando Pessoa se deslocou a Portalegre para adquirir um equipamento de impressão tipográfica a vapor, que instalou na Rua da Conceição da Glória, n.º 40, em Lisboa. A Tipografia Íbis de Pessoa chegou a imprimir o jornal O Povo Algarvio, semanário republicano independente de Loulé e, por certo, pouco mais, tendo este projeto se evaporado rapidamente, como tantos outros projetos do poeta dos heterónimos.